segunda-feira, 24 de julho de 2017

Apadrinhamento afetivo de crianças e adolescentes: entenda como funciona




O programa especial do CNJ Responde, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entrevista nesta semana a psicóloga Maria da Penha Oliveira. Ela é coordenadora do programa de apadrinhamento afetivo da ONG Aconchego, em Brasília, pioneiro no Brasil. Além disso, Penha é consultora para o Programa Matriz de Formação, uma parceria da ONG com a Secretaria de Direitos Humanos, cujo foco é a preparação para adoção e apadrinhamento afetivo. 

O apadrinhamento afetivo é um programa voltado para crianças e adolescentes que vivem em situação de acolhimento ou em famílias acolhedoras, com o objetivo de promover vínculos afetivos seguros e duradouros entre eles e pessoas da comunidade que se dispõem a ser padrinhos e madrinhas. Na entrevista, Penha explica quem pode apadrinhar, quais as responsabilidades dos padrinhos e madrinhas, os limites da convivência e como se dá este vínculo tão importante para a vida da criança. Assista aqui o vídeo.

De 2013 até 2015, a ONG Aconchego capacitou 43 padrinhos e madrinhas em Brasília, dos quais apenas 13 estão exercendo a atividade, que consiste em visitas quinzenais à criança, auxílio emocional, orientação vocacional, dentre muitas outras possibilidades de convivência. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, ser padrinho ou madrinha exige muita responsabilidade e comprometimento para manter o vínculo com crianças que já sofreram uma vez o afastamento de suas famílias de origem. Esse é um dos motivos de muitas pessoas fazerem o curso e acabarem desistindo no final.

As crianças aptas a serem apadrinhadas têm, quase sempre, mais de dez anos, e, portanto, chances remotas de adoção. Na entrevista, Penha esclarece alguns mitos em torno do apadrinhamento, como o de que a criança ficará frustrada por não ser adotada pelo padrinho, ou ainda de que o apadrinhamento consistiria em uma ajuda financeira.

“A pessoa se tornará uma referência na vida da criança, mas não recebe a guarda. O guardião continua sendo a instituição de acolhimento”, afirmou. Segundo ela, para que ocorram as saídas de fim de semana, os técnicos do abrigo vistoriam antes se a casa do padrinho é um ambiente familiar seguro, bem inserido socialmente. Para viagens e férias, é preciso a autorização da vara de infância. “Precisa ter responsabilidade. A criança que não teve vínculos precisa de previsibilidade, constância, não alguém que só apareça no Natal ou no Dia das Crianças”, afirmou. 

Maria da Penha ressalta que é fundamental que as instituições de acolhimento conheçam muito bem o programa e se capacitem para implantá-lo. “É um mito achar que o apadrinhamento cria a confusão na cabeça da criança ou que gera uma expectativa de adoção. Essas crianças sabem que as chances de adoção são remotas, e que eles têm que se cuidar para sua própria vida. Podem aprender com o padrinho como funciona uma família para construir a sua um dia. A gente orienta que os padrinhos não façam só programas de lazer, mas que deixem essas crianças participarem da rotina real das famílias, como ir ao supermercado, lavar o carro, etc”, ressaltou.

Ela observa que o aprendizado é efetivado a partir de vínculos. “E quando não se tem o vínculo social, vai dificultando a vida escolar. A maioria dos acolhidos tem um nível baixo de escolaridade, e o padrinho e a madrinha não podem ser mais um. Vão fazer a diferença na vida dele, não são mais um 'tio' que está ajudando a cuidar.”

Alguma dúvida sobre um tema ligado ao Judiciário? O CNJ Responde! Basta enviar um vídeo ou mensagem para o e-mail: ideias@cnj.jus.br. O programa está no ar no canal de vídeos da Internet toda quinta-feira, a partir das 11 horas.

Luiza de Carvalho Fariello
Agência CNJ de Notícias





Adoção Tardia - A idade fez dele crianças "inadotáveis, mas algumas famílias resolveram mudar essa história

Dependência de crack é responsável por 90% dos bebês adotados na região central de SP

Situação de rua e dependência química fazem com que muitas mulheres abandonem ou percam a guarda de seus filhos. Metade dos bebês é acolhida por familiares e a outra metade é adotada
por Luciano Velleda, para a RBA publicado 23/07/2017 16h48
ARQUIVO EBC
Adoção_bebês
O problema com drogas da mãe biológica não costuma atrapalhar na adoção dos bebês

















São Paulo – Em torno de 90% dos bebês colocados para adoção na região central de São Paulo são filhos de mães dependentes de crack e em situação de rua. Segundo a juíza Cristina Ribeiro Leite, responsável pela Vara da Infância e Juventude que atua no centro da capital paulista, muitas dessas mães são conhecidas no território e já ficaram grávidas várias vezes.
 “É comum termos mães com sete ou dez gestações. Muitas não sabem dizer onde estão os filhos e nem os nomes deles”, afirma a juíza. Ela lembra ter atuado recentemente num caso em que a mãe estava na 17ª gestação.
De acordo com a juíza Cristina Leite, a recorrência com as mães envolvidas com crack deve-se ao fato de elas não aceitarem medidas contraceptivas na esperança de estar em melhores condições na próxima gestação e, então, conseguir criar o filho. “’Eu ainda vou ser mãe um dia’, elas dizem, mas na prática não conseguem”, explica a juíza. “Temos essa realidade bastante dura.”
Os bebês colocados para adoção na área de abrangência da Vara da Infância Central provêm, em sua maioria, de partos ocorridos na Santa Casa de Misericórdia, no Hospital das Clínicas ou mesmo nas ruas, dentro de ambulância ou viatura policial. A situação é sempre dramática.
“Muitas estão tão perdidas que não conseguem dar relato sobre a família, não conseguem sequer dar o prenome de uma avó que talvez pudesse acolher aquela criança. A gente sempre prioriza retornar a criança para a mãe ou alguém da família”, explica a juíza.
A realidade, entretanto, é outra. Segundo Cristina Leite, são raros os casos em que a mãe consegue se recuperar e ficar com o filho recém nascido. As chances são maiores com mães que estão há pouco tempo em situação de rua ou em dependência do crack ainda não muito longa e, assim, aderem aos encaminhamentos da assistência social. “Às vezes consegue se reestruturar e até desacolher o filho, mas em muitos casos não temos informações da família e a mãe se evade da maternidade sem sequer apresentar documento”, diz Cristina.
Ela explica que há casos em que o hospital, ao verificar que a situação da mãe “é muito ruim”, pode não liberar o bebê. Por outro lado, afirma também haver situações em que a mãe foge devido à crise de abstinência. A situação, na prática, é complexa. Segundo a juíza, o direito da mãe é soberano e se ela decide doar a criança, mas depois se arrepende e volta atrás, sua vontade será respeitada. No entanto, esses casos são muito difíceis.
“Se mudar de ideia, em nenhuma hipótese o poder Judiciário vai contra essa vontade, a menos que exista risco para o bebê, como uma mãe usuária de crack ou moradora de rua, entre outras condições. Essa criança, no caso, vai ser acolhida, independente da vontade da mãe”, destaca Cristina Leite.

Saudáveis

Ao contrário do que o senso comum muitas vezes imagina, quase 100% dos bebês nascidos de mães usuárias de crack são saudáveis, apesar da mãe ter usado a droga durante a gestação e não ter feito exames pré-natal. A juíza salienta que o poder público e o Judiciário só colocam para adoção aquelas crianças em que, após os meses iniciais de vida, não se vislumbra nenhuma possibilidade de encontro com alguém da família. “A gente tenta não deixar que elas cresçam nos abrigos”, pondera.
A lista de casais dispostos a adotar um bebê recém nascido é grande, mesmo para aqueles com o perfil da mãe biológica usuária de crack. Na Vara da Infância e Juventude da região central, atualmente há mais de 40 casais na fila da adoção. “Esses bebês não têm nenhuma rejeição. Os casais que vêm se habilitar já sabem dessa realidade. Se o casal rejeitar uma criança filha de uma mãe da drogadição do crack, ele não vai conseguir adotar. São raros os bebês que vêm de outra forma. Às vezes tem uma mãe que vem fazer uma entrega voluntária, por já ter muitos filhos e não conseguir criar mais um”, explica Cristina Leite.
O problema, de acordo com a juíza, é a adoção de crianças mais crescidas, as chamadas “adoções tardias”. “Temos um número grande de crianças que já estão destituídas do poder familiar, prontas para a adoção, com 8, 9, 10 ou 11 anos de idade, mas não há pretendentes para essa faixa etária.” Quanto maior a idade da criança ou do adolescente, mais remota é a possibilidade de adoção.
Somente na região central de São Paulo há 19 serviços de acolhida. No total, atualmente há 275 crianças e adolescentes acolhidos, com idade entre zero e 17 anos. Os bebês com idade entre zero e três anos costumam ficar pouco tempo e são rapidamente adotados. Entre os outros há adolescentes com HIV que antes ninguém adotava e cresceram ou irmãos que a Justiça procura manter juntos para não separar.
A juíza diz ser difícil estimar se o número de bebês filhos de mães usuárias de crack tem crescido nos últimos anos, considerando que o problema social com a droga é uma realidade em São Paulo há quase duas décadas. Diz que há semanas em que se acolhe dois ou três bebês, enquanto em outras apenas um ou nenhum. Ela estima que, entre os bebês acolhidos com esse perfil, em metade dos casos se consegue recolocá-lo na família e a outra metade é adotada.

Amparo

Cristina Leite é enfática ao dizer que o objetivo da Vara da Infância é amparar a criança. “Se ela está em situação de risco, nós temos que tomar uma medida. Nossa tentativa de fazer a rede (de assistência social) trabalhar para que a família seja inserida, é sempre sob o ângulo da criança, se ela vai ter um ambiente saudável ou não”, explica.
Para ela, o ideal seria a existência de um serviço de acompanhamento e acolhimento dessas mães, embora ela mesma destaque que é difícil criar o vínculo com mães desse perfil. “Muitas têm três ou quatro filhos acolhidos, estão grávidas e fogem, porque não querem que o novo filho seja também acolhido, que é o que vai acabar acontecendo. Ao invés delas pedirem ajuda, elas fogem do Estado.”
A juíza imagina um local onde as mães que acabaram de dar à luz pudessem ficar com seus filhos e recebessem acompanhamento e atenção. “São mães que muitas vezes nem sabem cuidar do filho, não conseguem dar um banho, mal conseguem comer. Ainda que ela queira tentar se desintoxicar e sair da droga, é muito difícil. Se para uma mãe que tem toda a estrutura já é difícil dar o primeiro banho, para uma mãe que se vê na rua, sozinha, que estrutura ela tem?”, questiona. “É um trabalho de formiguinha. Não adianta esperar por essas mães, precisamos ir até elas e tentar acolhê-las um pouco antes de dar à luz.”
Ela pondera que os dados oficiais dizem não haver bebês na Cracolândia, apenas adolescentes, mas os relatos indicam o contrário. “A gente está todo dia vendo, é nossa realidade, por onde transitamos. Está aí, para todos verem”, conclui, sem meias-palavras para descrever o cotidiano da maior cidade do país.


Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/07/crack-e-responsavel-por-cerca-de-90-dos-bebes-colocados-para-adocao-em-sao-paulo



quarta-feira, 12 de julho de 2017

Samara Felippo: "Não sou negra, mas tenho filhas e luto por elas"

Amanda Serra
Do UOL
12/07/2017 13h23


Samara Felippo, branca e de cabelos lisos, é mãe duas meninas com ascendência negra e com cabelos crespos. Os questionamentos das garotas fizeram a atriz se indagar e levantar o debate sobre representatividade negra, empoderamento infantil e feminismo surpreendendo seus mais de 520 mil seguidores no Instagram. E vem mais por aí! Samara vai lançar em breve um canal no Youtube para discutir esses temas acompanhada da filha Alícia, de 8 anos.

 “Realmente não sou negra, não tenho cachos, mas tenho filhas e luto por elas. E vou fazer isso até que elas possam assumir seus lugares de fala na sociedade. Podem criticar (o fato de eu ser branca), mas vou falar e massificar o quanto eu puder essa questão que se faz necessária. Enquanto puder falar por elas, falarei”, afirmou a atriz em entrevista ao UOL. No bate-papo, ela ainda falou sobre as mudanças pelas quais passou nos últimos anos, inclusive, sobre o momento em que percebeu um mundo de possibilidades ao deixar a Globo, onde atuou por 16 anos. 

Alícia e Lara, 4, são frutos do relacionamento de Samara com o jogador de basquete Leandrinho (também conhecido como The Brazilian Blur”), que joga pelo Phoenix Suns. O casal se separou em 2013. O jogador continua morando nos Estados Unidos, enquanto a atriz vive no Rio de Janeiro com as filhas.

Uma criança negra crescer com um monte de Barbie loira ao redor é doído.

A mãe como modelo

Foi a partir dos dilemas levantados por Alícia - “Por que não existem meninas com o cabelo cacheado na minha escola? Eu não gosto do meu cabelo”, que Samara despertou e percebeu que precisava não só passar confiança para primogênita, como também aprender a cuidar dos cachos. Até então, um mundo estranho. 

“Não tinha parado para pensar nos cachos, até que vi que existia xampu específico, cronograma capilar, óleos que podem e que não podem ser usados. Achava que entendia tudo, mas somos tão arraigados com racismo, machismo e todos esses preconceitos, que cometemos erros sem perceber. Como manter o cabelo amarrado para abaixar o volume ou pentear e fazer comentários do tipo ‘como dá trabalho’. A criança cresce pensando que o cabelo dela é um fardo”, relata ela.

Apesar do esforço de Samara, para encorajar e ser um exemplo para as filhas, a ausência de semelhanças físicas pesa no dia a dia. 

“Elas não se veem representadas em lugar nenhum. E é muito óbvio, pois não existe representatividade negra na mídia, na moda, nos desenhos animados, nos brinquedos. Uma criança negra crescer com um monte de Barbie loira ao redor é doído. Na sala dela, só tem um menino negro, mas ela não se vê ali”, desabafa a atriz, que precisou procurar blogs, reportagens específicas e ativistas negras, como a Djamila Ribeiro e a blogger Raiza Nicácio, para entender questões como apropriação cultural e racismo.

 “A Alícia ama quando se vê representada na MC Sofia, na Karol Conka, quando ouve ‘seja você sua heroína’. A identificação é imediata. Recentemente, comprei quatro bonecas negras para elas. Um desenho ter um personagem negro devia ser natural e não provocar comentários do tipo: ‘nossa, tem até um negro’”.

Os filmes de princesas, por exemplo, não são proibidos na casa de Samara, mas são vistos com atenção. “Você já vive em uma sociedade que diz que a mulher é 'obrigada' a arrumar um marido, casar e ter filhos. Você cresce assistindo isso e, quando chega na fase adulta, vê que não é assim. É complicado lidar com essa frustração. Não é só casar e ter filhos, você pode não fazer nada disso. E tudo bem! Quero que minhas filhas estejam à vontade com os seus valores e suas vontades".

"Quando eu parei de atuar na Globo virei outra pessoa. Foram 16 anos seguidos fazendo novela, uma atrás da outra, sem deslumbrar minha vida fora dali"

Como surgiu o engajamento?

A atriz está aprendendo na marra, se questionando e também se divertindo em meio aos cachinhos de Alícia e Lara. “Junto com isso vem a identidade, a segurança. Esse processo tem sido enriquecedor. Mudou a minha postura como ser humano. Uma mãe branca com uma filha branca jamais vai parar para escutar a luta negra e mostrar para filha que um cabelo black, cheio, crespo, encaracolado não é estranho, é apenas diferente. As mães brancas com filhos brancos também precisam dar referência e mostrar que a sociedade [brasileira] é miscigenada”, alerta.

Aos 38 anos, o amadurecimento de Samara também está interligado com a transformação profissional pela qual a atriz que cresceu diante das câmeras passou. “Quando eu parei de atuar na Globo, virei outra pessoa. Foram 16 anos seguidos fazendo novela, uma atrás da outra. Quando meu contrato acabou, meu mundo caiu, parecia que não tinha mais vida. O que me despertou foi descobrir que existia e existe um mundo cheio de possibilidades. Eu era imatura, insegura, não parecia, mas era, uma menina de 18 anos vinda da Zona do Norte do Rio de Janeiro”, reflete.

Prestes a lançar um blog (ainda sem nome e data definidos) sobre questões raciais e representatividade infantil, Samara adianta que pretende entrevistar personalidades negras acompanhada da filha mais velha, Alícia. A atriz Sheron Menezes, que está grávida e cuja mãe, Veralinda Menezes, já escreveu um livro infantil sobre uma princesa negra, deve ser uma das primeiras convidadas.

“Não tenho lugar de fala algum para falar sobre cabelos crespos ou sobre ser negra, exceto por ter filhas de um pai negro e saber que um dia elas podem sofrer racismo. Se um dia isso ocorrer, quero que elas estejam de cabeça erguida, empoderadas. Tenham poder sobre si e sua identidade. Não quero me sentir frustrada, sou uma mãe que quer dar autonomia e independência para elas”, finaliza a atriz que diz não temer críticas sobre seu posicionamento.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Inscrições para a Reunião de Agosto/17 do Projeto Acolher

Prezados amigos,

Informamos que as inscrições para a reunião de agosto para os grupos Acolhimento e Grupo de Pais (antigo Reflexão) estarão abertas a partir do dia 24/07 e, para inscrever-se é necessário nos enviar e-mail informando:

- Nome completo dos participantes,
- Telefone para contato
- Se já participaram de alguma reunião do Acolher
- Se já adotaram
- Se pretendem levar alguma criança no dia da reunião (nome e idades).

Grupo de Acolhimento - 
   destinado àqueles que nunca participaram de reuniões do Projeto
   Acolher

- Grupo de Pais (antigo Reflexão)
   destinado às pessoas que já adotaram ou que já participaram do 
  "Meu Projeto de Adoção"


Data da Reunião:    05/08/2017
Horário:                  das 16 às 18:30h

Alertamos ainda, que, quanto ao grupo MPA - Meu Projeto de Adoção, as novas turmas serão abertas somente em Fevereiro/2018
O requisito para a participação no MPA é ter passado pelo grupo Acolhimento.


Esperamos por vocês!!!

A coordenação.

10 coisas que alguém adotado gostaria que você soubesse sobre adoção



Fabiana Santos

Das coisas que nunca esqueci como repórter foi uma entrevista num abrigo de crianças órfãs, em Brasília. A responsável me explicou que havia casos de crianças “devolvidas” depois de adotadas, porque simplesmente as famílias desistiam. Como assim? Uma criança não pode ser tratada como uma mercadoria “com defeito” que a loja aceita de volta!
Os motivos, segundo ela, eram do tipo: “eu descobri que estou grávida, por isso não quero mais” ou “eu não imaginei que ele me daria tanto trabalho”. Fiquei muito impressionada. Imagine a cabecinha de uma criança dessas? Ela me disse ainda que crianças assim voltam para o abrigo destroçadas. É preciso um longo caminho para que elas confiem em alguém novamente. Claro que esta não é uma situação comum, mas só de saber que existe…
Christina Romo foi adotada aos 2 anos de idade, mora nos Estados Unidos e trabalha numa organização de apoio à adoção. Com a autorização dela, eu traduzi um texto com dez dicas que ela tem pra dar a pais adotivos ou para quem mais se interessar pelo tema. Vale a pena conferir o que Christina diz:
1. Impossível ignorar que perder os pais de nascimento é traumático para uma criança. Esta perda será sempre uma parte de mim. Irá moldar quem eu sou e vai ter um efeito sobre meus relacionamentos – especialmente a minha relação com você.
2. O amor não é o suficiente para a adoção, mas certamente faz a diferença. Diga-me todos os dias que eu sou amada – especialmente nos dias em que eu não estou particularmente adorável.
3. Mostra-me – por meio de suas palavras e ações – que você está disposto a resistir a qualquer tempestade comigo. Eu tenho dificuldades em confiar nas pessoas por causa das perdas que experimentei na vida. Mostre-me que eu posso confiar em você. Mantenha sua palavra. Eu preciso saber que você é uma pessoa segura na minha vida, e que você vai estar lá quando eu precisar de você e quando eu não precisar de você.
4. Eu sempre acho que você vai me abandonar, não importa quantas vezes você me diga ou me mostre o contrário. A idéia de que “as pessoas que me amam vão me deixar” foi incutida em mim e será para sempre uma parte de mim. Eu posso querer te afastar de mim para me proteger da dor da perda. Não se importe com o que eu diga, eu preciso de você para me mostrar que você nunca vai desistir de mim.
5. Eu preciso de você para me ajudar a aprender sobre a cor da minha pele ou minha cultura de origem, porque é importante para mim. Eu não me pareço com você, mas eu preciso de você me dizendo – por meio de suas palavras e ações – que não há problema em ser diferente.
6. Eu preciso de você para ser o meu advogado. Haverá pessoas em nossa família, na escola, na vizinhança, na sala de espera da consulta pediátrica… que não entendem sobre adoção. Eu preciso que você explique a elas sobre isto.
7. Em algum momento posso perguntar ou desejar procurar minha família biológica. Você pode até me dizer que estas pessoas não importam, mas não ter esse tipo de conexão deixou um vazio na minha vida. Você sempre será a minha família. Se eu perguntar ou procurar pela minha família biológica, isso não significa que eu te ame menos. Viver sem o conhecimento da minha família biológica tem sido como trabalhar num quebra-cabeças com peças faltando e saber sobre ela pode me ajudar a me sentir mais completa.
8. Por favor, não espere que eu seja grata por ter sido adotada. Eu suportei uma tremenda perda antes de me tornar parte de sua família. Eu não quero o discurso “você me salvou e eu deveria ser grata” pairando sobre a minha cabeça. Adoção é algo sobre a formação de famílias para sempre e não sobre “caridade” para uma criança.
9. Não tenha medo de pedir ajuda. Posso precisar de ajuda para lidar com as perdas que experimentei e outras questões relacionadas com a adoção. Talvez você também precise e isso é completamente normal. Junte-se a grupos de apoio para famílias adotivas, por exemplo. Isso pode exigir que você saia de sua zona de conforto, mas vai valer a pena.
10. A adoção é diferente para todos. Por favor, não me compare com outros adotados. Apenas veja a experiência dos outros para que isso lhe ajude a encontrar a melhor maneira de me entender. Respeite-me como um indivíduo. Nossa jornada nunca vai acabar; não importa o quão instável a estrada possa ser, e independentemente de onde ela pode levar, o fato de estarmos juntos nesta mesma estrada vai fazer toda a diferença.
Se por acaso você quiser saber mais sobre os meios legais para se adotar uma criança no Brasil, visite a página do Cadastro Nacional de Adoção.

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC. Ela é mãe de Felipe, de 10 anos, e Alice, de 4 anos. Este texto é, de alguma forma, uma homenagem a dois amigos dela, que geraram filhos do coração.

domingo, 2 de julho de 2017

Brancas com descendência negra: Como mães adotivas aprendem a lidar com racismo

Dados do Cadastro Nacional de Adoção mostram que 65% das crianças prontas para a adoção no Brasil são negras ou pardas.
Nery tinha o sonho de ser mãe. Mas aos 42 anos, seu relógio biológico começou a lhe falhar. Foi quando surgiu a oportunidade de adotar uma menina, então com poucos dias de vida, cuja mãe biológica não tinha condições financeiras nem familiares para criar. A garotinha era Tatiana Taveira. Ela cresceu num ambiente saudável e feliz, com o amor e o afeto dos pais e da família.
Mas, da porta de casa para fora, provou de uma realidade que seus pais adotivos, por serem brancos, nunca experimentaram: o racismo.
Pais brancos que adotam crianças negras vivem um fenômeno curioso: eles geralmente têm pais e avós brancos, mas passam a ter uma descendência negra. A partir disso, precisam aprender a lidar com o preconceito racial que seus filhos inevitavelmente vão sofrer ao longo da vida.
“Uma pessoa que toma a decisão de adotar uma criança de uma raça diferente da sua tem grande probabilidade de enfrentar preconceitos no Brasil”, afirma a assistente social Silvana Rufino no estudo “Uma realidade fragmentada: a adoção inter-racial e os desafios da formação de uma família multiracial”. Segundo ela, a sociedade ainda se encontra despreparada para viver a situação da adoção inter-racial, uma vez que a filiação adotiva ainda é vista com restrições.
Dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) mostram que, atualmente, 65% das crianças prontas para a adoção no Brasil são negras ou pardas. O racismo enfrentado por essas crianças – e, por tabela, por suas famílias – ganhou publicidade recentemente com a queixa feita à polícia pelo casal de atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso por comentários racistas feitos na internet sobre sua filha, Titi.
Fora do mundo dos famosos, também estampou as páginas de jornais e sites a história do artista plástico Enio Squeff, cujo filho adotivo negro, de 7 anos, foi confundido com um pedinte por seguranças do Shopping Higienópolis, localizado em um bairro nobre de São Paulo.
Os desafios vão de coisas simples, como arrumar os cabelos das crianças, a lidar com o racismo velado nas escolas, conforme revela a aposentada Cecília Silva Brito, de 53 anos, que tem uma filha de quatro anos, Maria Clara. “Eu trabalho muito a autoestima dela. Quero que ela se goste e se reconheça como uma menina bonita, para poder enfrentar todas as coisas que vão aparecer em sua vida”, diz Cecília.
Maria Clara ainda é muito nova para entender o mundo à sua volta, mas já carrega consigo algumas marcas.
Cecília e o marido, Edson Brito, adotaram Maria Clara quando ela tinha 9 meses. Nesses três anos, lidaram com os problemas de saúde e de desenvolvimento da filha, provenientes da dependência química da mãe biológica. O tratamento neurológico e as sessões de fonoaudiologia e fisioterapia foram essenciais para que hoje Maria Clara seja uma criança saudável e com um desenvolvimento normal para a sua idade. Tão normal que já define, por exemplo, como gosta de usar o próprio cabelo. Cecília conta que ela prefere ele solto e não gosta de prender as madeixas. A mãe tem bastante trabalho para cuidar do cabelo da filha, uma vez que encontrar produtos de cabelos crespos para crianças não é uma tarefa fácil.
Nas poucas vezes que falou publicamente sobre a maternidade, a atriz Leandra Leal tocou justamente nesse ponto. “Queria compartilhar uma observação que fiz nos últimos tempos. A falta de opção de produtos para cabelos de crianças negras. Bebês com menos de 3 anos, então!”, desabafou em sua conta no Instagram. “Conversei com várias amigas, assim como eu, mães de crianças negras, e todas têm a mesma queixa. O cabelo da criança negra, o crespo, não é igual ao cabelo cacheado”. Leandra e o marido, o empresário Alexandre Youssef, adotaram Julia, de 2 anos, no ano passado.
Edson, o pai de Maria Clara, conta que, no início, a esposa abordava na rua pessoas com cabelos crespos para pedir indicação de produtos e cuidados. Segundo ele, até o momento, a família não viveu nenhuma situação de preconceito com a filha em espaços públicos. Mas tem ciência da dimensão do preconceito racial da população brasileira. “É aquela coisa: as pessoas acham que não são racistas porque têm um amigo negro quando, na realidade, o exercício para não reproduzir o racismo tem que ser diário”, opina Edson. O casal diz que, à medida em que a filha for crescendo, vão discutir com ela o preconceito e os estereótipos que a cor da sua pele carregam, de forma a dar estrutura e argumentos para que a filha possa se defender e lidar com isso.

Conversa franca

Essa parece ser uma preocupação e uma postura crescente entre os pais adotivos, conforme a discussão racial entra pauta na pauta da opinião pública. “Meus pais são de uma época em que não se falava de racismo. Era algo levado e não discutido”, observa Tatiana, a bebê lá do início da reportagem, hoje com 38 anos. Ela conta que as primeiras experiências de discriminação que sofreu foram na escola. Além do bullying sobre o seu cabelo crespo, chamado pelos colegas de Bombril, Tatiana lembra que as alunas queridas pelos professores, as chamadas de princesas, eram sempre meninas brancas. Que a ela eram dirigidas sempre críticas, nunca elogios.
“É claro que eu tenho consciência disso hoje, na época eu não entendia a dimensão daquilo e só queria fugir. Acho que por isso escolhi a área de educação como profissão”, diz Tatiana, que está no último ano da faculdade de pedagogia.
Ela diz que não contava dos problemas que tinha na escola para os pais, pois sentia vergonha e culpa.
Na família Taveira a própria questão da adoção era um assunto delicado. Apesar da clara diferença da cor da pele e dos traços físicos, nunca foi contado para Tatiana a história da sua origem. Ela diz que suspeitava que era adotada, mas só teve certeza disso aos 17 anos, quando encontrou nas coisas dos pais a certidão de nascimento de antes da adoção. Quando questionou a mãe, ela caiu no choro e Tatiana resolveu sublimar o assunto. “Vi que causava sofrimento e não fazia sentido pressionar diante de tanto afeto e carinho”, conta.
Ela só retomou a busca pelas suas origens há cerca de oito anos, depois que a mãe adotiva faleceu. Perguntou ao pai o nome da mãe biológica, que encontrou por meio de redes sociais e com quem mantém uma relação de amizade e carinho. Tatiana conta que nunca pensou na questão da adoção como um processo de rejeição, mas sim como a oportunidade de uma vida melhor. “Eu tive uma vida melhor que minha irmã [biológica] mais velha, que passou por privações e sofreu violência doméstica com um pai alcoólatra”, diz.
Para a assistente social Silvana, fingir que o assunto não existe é um péssimo negócio. Ela recomenda que as diferenças de origem sejam reconhecidas pelos pais e o tema abordado com franqueza. “É exatamente a aceitação dessas diferenças que permitirá aos pais levar em consideração a sua história anterior e estabelecer, junto com seu filho, um relacionamento que facilitará o seu desenvolvimento, num contexto cultural diverso daquele de origem”, afirma.
Ela aconselha que os pais brancos propiciem à criança, de forma positiva, vivências da cultura negra e que as características biológicas negras sejam valorizadas abertamente. “É possível que uma criança afro-descendente adotada por pais brancos sinta-se e seja sentida como um verdadeiro membro dessa nova família, num clima recíproco de dignidade e respeito, mesmo em sociedades em que ainda são fortes as barreiras estabelecidas entre as diferentes etnias”, afirma.

O processo

A maioria das crianças negras enfrenta o preconceito racial ainda no processo de adoção. Isso porque quase 20% dos pretendentes à adoção só aceitam crianças brancas, segundo o Cadastro Nacional de Adoção (CNA). “A questão da cor é o grande problema dessa conta não fechar”, diz Dora Martins, juíza substituta de segundo grau e membro da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP).
A assistente social Silvana Rufino diz que preconceito racial no processo de adoção emerge por meio das exigências impostas pelos casais requerentes que, ao se cadastrarem, expõem como idealizam e como desejam a criança, tratando a questão, muitas vezes, como um ato mercantilizável.
O processo de preparação para a adoção, porém, faz com que os adotantes enfrentem e revelem os seus preconceitos, segundo Dora. Um dos longos formulários a preencher é para indicar se há restrições em relação a raça, idade, sexo, doenças e origem de pais dependentes químicos. “Nos cursos, a gente fala para as pessoas que elas vão se defrontar com seus preconceitos, com seu racismo, com as suas dificuldades e assumi-las. Ninguém é obrigado a adotar uma criança crescidinha e negra, mas vai ter que assumir que essa era uma possibilidade e você a está rejeitando, o que pode fazer o tempo de espera aumentar”, diz a juíza.
O processo de inscrição da adoção inclui, além da papelada, cursos de apoio à adoção e entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. Se aprovado, o nome do pretendente será habilitado a constar dos cadastros local e nacional de adoção.
Cecília afirma que chegou às cegas no curso preparatório sobre todo o processo pelo qual teria que passar e que ele foi muito importante para ampliar sua visão sobre a adoção. Ela conta que precisou analisar as próprias expectativas. “O relatório chocou um pouco a gente. Lá você precisa colocar o que pode abraçar e o que pode fazer diante de tudo aquilo”, conta.
Para ela e o marido, a cor da pele não era uma restrição. Eles até colocaram como preferência crianças maiores de três anos, devido à idade mais avançada do casal, e por isso foram pegos de surpresa quando a assistente do fórum ligou perguntando se eles queriam conhecer uma bebê de nove meses. “Conhecer um bebê é olhar e levar para casa, né?”, diz Cecília. E foi assim mesmo que aconteceu: eles conheceram Maria Clara numa quarta-feira e, no sábado da mesma semana, a levaram para casa.
A juíza Dora faz uma defesa veemente ao processo de adoção por vias judiciais. Segundo ela, é dever do Estado fazer o filtro para verificar quem é o pretendente à adoção, quais são seus desejos e intenções. “O foco precisa ser a criança, não as necessidades da família adotante”, diz.
A juíza vê fortes marcas do Brasil colonial nos processos de adoção ilegais que ainda acontecem com frequência no Brasil.
Ela conta que uma prática comum é o casal pegar uma criança diretamente de sua mãe biológica, ficar com ela por um tempo informalmente, criar vínculos, e depois contratar um advogado para fazer um dossiê e entrar com o pedido de guarda do menor.
Outra prática ilegal que vem se tornando moda, segundo a juíza, é o casal pagar a mãe biológica para ficar com o bebê, que é registrado no nome do homem do casal ao nascer, como pai biológico. Depois, o casal entra com um processo em que a mãe biológica concorda com a adoção da criança pela esposa do casal, como se a criança tivesse sido fruto de um caso extraconjugal do marido.
Para combater a prática, o Judiciário pede exames de DNA em processos com esse perfil. “Tudo isso mostra que o Brasil ainda pensa colonialmente, reproduzindo a história do filho de criação, em que os senhores e feitores engravidavam suas escravas e depois o filho era criado no quintal. Ainda temos essa relação com esse tipo de adoção [ilegal]. O cara que procura um filho assim está reproduzindo esse consciente colonialista e escravagista”, diz Dora.
Esse, inclusive, é um traço importante do preconceito de raça no Brasil, que tem a ver com a formação cultural do país. Diferente do racismo que prevaleceu nos Estados Unidos e na África do Sul, que era segregacionista, no Brasil ele é um “racismo de intimidade”, segundo os estudos da psicóloga social Lia Schucman. Lia estudou em seu doutorado como o racismo se manifesta dentro de famílias inter-raciais.
Esse tipo de racismo pressupõe a interação entre brancos e negros em relações que podem ser mediadas pelo afeto, sem deixar de ser racista ao mesmo tempo.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Inscrições para a Reunião de Julho/2017

Prezados amigos,

Informamos que as inscrições para a reunião de junho para os grupos Acolhimento, Meu Projeto de Adoção Reflexão estarão abertas a partir do dia 19/06/2017 e, para inscrever-se é necessário nos enviar e-mail para projetoacolher@gmail.com,  informando:

- Nome completo dos participantes,
- Telefone para contato
- Se já participaram de alguma reunião do Acolher
- Se já adotaram
- Se pretendem levar alguma criança no dia da reunião (nome e idades).

Lembramos que as inscrições são realizadas por ordem de recebimento dos emails e as vagas são limitadas!

Grupo de Acolhimento - 
   destinado àqueles que nunca participaram de reuniões do Projeto
   Acolher

- Grupo Meu Projeto de Adoção -
   destinado às pessoas que já passaram pelo grupo Acolhimento, e que 
   não adotaram ainda (clique aqui e saiba mais).

- Grupo Reflexão 
   destinado às pessoas que já adotaram ou que já participaram do 
  "Meu Projeto de Adoção"


Data da Reunião:    01/07/2017
Horário:                  das 16 às 18:30h


Por sermos uma entidade sem fins lucrativos, mas com várias despesas, solicitamos a contribuição no valor de R$ 20,00 por reunião e por pessoa, a ser pago no dia da reunião. 

No entanto, dificuldades financeiras não são impedimento para a participação nos encontros. Basta somente nos comunicar no ato da inscrição, que a mesma será isentada.



Esperamos por vocês!!!

A coordenação.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Caminhada da Adoção - 21 de maio de 2017


No último domingo, dia 21, o Projeto Acolher esteve presente na Caminhada pela Adoção, na Av. Paulista.

O Projeto Acolher contou com a participação de 20 pessoas e este momento foi muito bonito, reunindo inúmeros Grupos de Apoio, todos unidos pela garantia do direito à convivência familiar e comunitária de toda a criança e adolescente, bem como pela legitimidade da família adotiva.