terça-feira, 19 de setembro de 2017

Inscrições para o encontro de Outubro/17 do Projeto Acolher

Prezados amigos,

Informamos que as inscrições para a reunião de agosto para os grupos Acolhimento e Grupo de Pais (antigo Reflexão) estarão abertas a partir do dia 25/09 e, para inscrever-se é necessário nos enviar e-mail (projetoacolher@gmail.com), informando:

- Nome completo dos participantes,
- Telefone para contato
- Fórum no qual está inscrito (ou irá se inscrever)
- Se já participaram de alguma reunião do Acolher
- Se já adotaram
- Se pretendem levar alguma criança no dia da reunião (nome e idades).

Grupo de Acolhimento - 
   destinado àqueles que nunca participaram de reuniões do Projeto
   Acolher

- Grupo de Pais (antigo Reflexão)
   destinado às pessoas que já adotaram ou que já participaram do 
  "Meu Projeto de Adoção"


Data da Reunião:    07/10/2017
Horário:                  das 14 às 16:00h (Acolhimento - 1ª turma)
                                das 16 às 18:00h (2ª turma do Acolhimento, Grupo de Pais e MPA)

As vagas são limitadas e as inscrições são realizadas por ordem de recebimento dos emails.

Alertamos ainda, que, quanto ao grupo MPA - Meu Projeto de Adoção, as novas turmas serão abertas somente em Fevereiro/2018
O requisito para a participação no MPA é ter passado pelo grupo Acolhimento.


Esperamos por vocês!!!

A coordenação.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sobre ser o único negro do rolê




Uma carta nada pessoal aos meus amigos brancos. 


Por Jay Viegas, no Viadapé
Sobre ter crescido em uma família branca, estudado em escolas brancas e frequentado ambientes predominantemente (se não completamente) brancos, longe de qualquer referência positiva a respeito da negritude, da cultura negra ou de qualquer outra coisa que me fizesse sentir bem sobre ser negra.
E então na adolescência, ouvir aquele monte de bandinha de rock branca, tentando não sair muito no sol por medo de que minha pele ficasse ainda mais escura (me apropriando do “elogio” de que “ah, você nem é tão negra assim”). Sobre odiar meu cabelo porque eu jamais conseguiria fazer com que ele ficasse como o daqueles muleques punks de mechas coloridas nos clipes da MTV.
Sobre ir em restaurantes com a minha família e perceber o estranhamento dos garçons por eu estar sentada na mesma mesa que eles.
Sobre ir brincar na casa dos amiguinhos e perceber a vigilância no olhar de seus pais. Sobre passar metade da minha vida achando que eu era simplesmente bizarra demais para qualquer pessoa se interessar por mim, ficar ouvindo minhas amigas brancas contarem sobre seus casinhos e pensando quando que ia ser a minha vez – pra dai me assumir como gay achando que “ah, se pá que era isso!”, mas passar pela mesma coisa nas baladinhas gays do centro. Sobre crescer, aprender e perceber que, de onde eu venho, pessoas negras não são nem parte do jogo.  E o foda é que isso não pode ser individualizado ou culpabilizado em cima das crianças do colégio – afinal eles (e até certo ponto, eu) nunca viram representações de pessoas negras para além de: 1) a empregada que trabalha lá em casa que é “praticamente da família; 2) o “zikinha” sendo preso no programa do Datena; 3) o jogador de futebol que “tem um cabelo bizarro”; 4) o rapper que eles não cansam de tentar imitar, usando a calça no meio da bunda e decorando letras do racionais como se fossem versos da bíblia; 5) o traficante ultraimpulsivo e violento dos filmes policiais que gera memes do tipo “dadinho é o caralho”. Cara, esse último se pá é o pior. Perdi a conta de quantas vezes eu vi meus colegas brancos serem extremamente racistas imitando esses personagens – e como eu nunca disse nada a respeito. Tudo isso sem nem entrar no tópico da representatividade da mulher negra, porque bom, ela mal existe para além da imagem objetificada da mulata gostosa rebolando no carnaval.
Minha vida toda, na maior parte dos rolês que dei com meus amigos, sempre rolou aquele momento de olhar em volta e pensar “cara, eu sou a única pessoa negra aqui”. E isso me colocava numa posição zuada, como se eu tivesse que representar alguma coisa, como se eu tivesse que me enquadrar em algum padrão de negritude que seria aceito por eles.
Porra, é claro que eu me sentia um alien!
Minha vida toda, na maior parte dos rolês que dei com meus amigos, sempre rolou aquele momento de olhar em volta e pensar “cara, eu sou a única pessoa negra aqui”.
E sobre ser o “amigo negro”. Do tipo “óbvio que não sou racista, a gente é amigo né”. Sai daqui cara. Para de falar “negão” e ficar imitando o 50 cent, tira esses dreads e entende que isso não tem nada a ver com a sua admiração pela cultura negra – se enxerga nessa sua apropriação cultural e perceba o real significado de tratar a sua empregada como cidadã de segunda classe. (Seu filho quer ser preto aaaaah.. que ironia…) Para de falar que você queria ser preto como se ser preto fosse um passaporte pra falar “nigga” e colar no samba. Você não quer ser preto no seu dia-a-dia, você não quer ser discriminado, julgado e excluído. Você não quer ser preto para além da estética. Gente branca tem dessas de amar a cultura negra, desde que ela não seja protagonizada pelos negros…
Para de falar que você queria ser preto como se ser preto fosse um passaporte pra falar “nigga” e colar no samba.
E pare de dizer “eu sei como você se sente”, porque você não sabe. Você acorda diariamente sem ter que parar um segundo para pensar sobre a cor da sua pele e como ela pode afetar o decorrer do seu dia. Pare de falar que “pra mim todo mundo é igual”, que você não vê nenhuma diferença entre nós. Nós somos diferentes migo, e se você não reconhece isso, não reconhece seu próprio privilégio. E isso me faz gostar menos de você. E sério, sério mesmo, por favor PARE de mexer no meu cabelo sem minha autorização e dizer como ele é diferente e parece uma nuvem.
Só pára. Tá feio.
Cara, eu amo todos os meus amigos, mesmo. Mas tiveram tantas vezes na minha vida em que precisei ter alguém para compartilhar essas coisas, mas nem me atrevia a tentar por saber que nenhum deles nem começaria a entender.. afinal eu mesma só estou começando a entender muitas coisas agora. Sei lá. Só queria ter sacado algumas coisas antes, sabe? Ter tido a consciência de que, em muitos momentos, o fato de eu me sentir excluída e alienígena não era só porque eu sou “meio tímida e estranha”. Minha adolescência teria sido bem mais fácil.
Enfim. Ser o único negro do rolê pode ser bem solitário às vezes.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A IMPORTÂNCIA DA FREQUÊNCIA AOS GRUPOS DE PREPARAÇÃO



No primeiro encontro “obrigatório” dos pretendentes junto ao Grupo de Apoio à adoção nota-se que alguns chegam meio contrariados, engessados, até reclamando. Dizem que pais biológicos, mesmo sendo dependentes químicos, moradores de rua, casais muito jovens não precisam de curso. Outros chegam alegres entendendo que será “um dia a menos” na espera.
Por que os que irão adotar devem passar por um curso ou grupo de preparação? Porque é uma gestação diferente, com pessoas que já levam a vida a dois por anos (ou solteiros independentes) e haverá significativas mudanças em suas vidas. Deverão construir uma parentalidade num momento, muitas vezes “num ciclo vital adiantado” e deverão refletir muitos nas mudanças que irão enfrentar.
Durante a frequência na preparação para adoção, os pretendentes irão entender o motivo da demora da chegada do filho, conforme vemos em TJMS (p. 33):

A demora é diretamente proporcional ao menor ou maior grau de aceitação da família quanto às características da criança. Quando surge a criança disponível para adoção, se ela não coincide com as características preferidas pelos adotantes inscritos em primeiro lugar, eles nem serão consultados e a criança será logo proposta ao pretendente da lista que tenha indicado as características dessa criança, que poderá ser o segundo, ou o quarto, ou o quinto até o último da lista.

A frequência nos Grupos de Preparação é importante porque:
  1. Será um momento especial para avaliarem seus limites e potencialidades para adoção;
  2. A preparação serve para “fortalecer” sua decisão de receber um filho por um caminho singular;
  3. Fará o pretendente entender que o filho precisará ter um espaço psicológico para se “reconstruir“ na vida ao lado destes pais;
  4. Saber que irão aparecer semelhanças e diferenças entre pais e o filho. E mesmo assim continuará sendo seu filho;
  5. Lembrar que, no momento oportuno, serão chamados de pai e mãe, mas para isso deverão sentir-se realmente pais;
  6. Outra questão será a avaliação do seu estilo de vida, sua estrutura, seja familiar, psicológica e profissional;
  7. Saberá da importância do casal (ou solteiro) estar desejando a adoção. Será uma decisão para toda vida. No caso do casal, se apenas um deseja e outro apenas concorda não dará certo;
  8. É o momento do “pré-natal psicológico”, sem exames, mas com estímulos e orientações para enfrentar está época repleta de ansiedade , dúvidas e expectativas;
  9. É importante também conversar sobre dificuldades que possam surgir. Os maiores entraves sempre partem dos adultos: conflitos dos pretendentes;
  10. Para informar que este filho terá desenvolvido “laços afetivos” com as pessoas com as quais conviveu na instituição. Terá saudades e poderá desejar fazer visitas;
  11. Durante a preparação será lembrado aos pretendentes a importância de colocar a família extensa no seu projeto adotivo;
  12. A abordagem dos prováveis e mais comuns conflitos, dúvidas, medos e interrogações formuladas pelos pretendentes que terão este momento especial para esclarecê-los;
  13. Serão lembrados que as crianças se desenvolvem, crescem e todos, pais consanguíneos ou adotivos devem assumir o risco que acompanha as transformações nos infantes;
  14. Durante a preparação nos grupos poderá despertar o desejo de ampliar a faixa etária do filho que esperam. Se tornam mais flexíveis e receptivos;
  15. Se conscientizarão que não irão receber um filho “parecido com eles”. Virá com história de vida, com outra carga genética e também possuem expectativas em relação aos novos pais e familiares;
  16. Poderão analisar se podem assumir uma família maior adotando grupo de irmãos;
  17. As crianças especiais também desejam ter família, querem ser filhos;
  18. Será a hora de preparar o acolhimento do filho. Futuros pais devem amadurecer, pensar no compromisso que terão entendendo que a chegada do filho trará uma nova dinâmica para todos familiares;
  19. Nos grupos ouvirão “depoimentos” dos que já adotaram e ouvirão histórias das alegrias e como estes pais venceram as dificuldades encontradas;
  20. Entenderão que a demora faz parte do processo e que cada dia que passa “será um dia a menos” para a chegada do filho;
  21. Refletir muito sobre o enfrentamento que terá com os comentários (positivos e negativos), os preconceitos e a discriminação;
  22. O maior desafio dos adotantes será o de se deixar apaixonar pelo filho e de descobrir como fazer o filho se apaixonar pela nova família, como cativá-lo e acolhê-lo. Sem isso a adoção não existirá;
  23. Receberá estímulos para resistir a tentação de abandonar tudo e reforçar o que deseja;
  24. Os ditos populares dizem que quando uma porta se fecha ainda pode se pular uma janela. Quando um sonho se desfaz, Deus os reconstrói por outros caminhos;
  25. Analisar seu perfil pessoal. Por que desejo uma criança com esta ou aquela idade? Que significados isso representa?
  26. Adotar é formar a família de forma peculiar. Aceitar esta missão de construtores de vidas.
Quando o Grupo de Reflexão finaliza a preparação espera-se que os pretendentes tenham percebido a importância desta reflexão e que assumam o compromisso da adoção com muita responsabilidade. Que seja uma adoção consciente!

Fonte—“ Adoção e a preparação dos pretendentes”- Hália Pauliv de Souza e Renata P.S.Casanova-Ed Juruá-pág 39

domingo, 27 de agosto de 2017

Sobre as mudanças do perfil da criança desejada no processo de adoção


Suzana Sofia Moeller Schettini


Toda e qualquer criança ou adolescente podem ser adotados, desde que os pretendentes estejam preparados para tal adoção.
Estar preparado não significa pensar que "se tenho muito amor para dar" isso resolverá todas as dificuldades. A disponibilidade para amar é fundamental, entretanto, é preciso ter consciência, em primeiro lugar, que a adoção é um caminho diferente com especificidades próprias. 
Muitos pretendentes entram nesse caminho após anos de tentativas frustradas buscando gestar pela via natural. Estão estressados e cansados. E têm pressa, pois o tempo passa implacável para todos. Essa pressa gera a ansiedade que acompanha a maioria das histórias. O caminho da adoção passa a ser a esperança para a compensação dos sofrimentos vividos. 
Essa compreensão, se está presente, não está adequada. Embora as dores e angústia dos pretendentes sejam legítimas e cruéis, o caminho da adoção não tem o objetivo de compensar nenhum pretendente de nenhum sofrimento!
A ADOÇÃO É UM DIREITO DA CRIANÇA!
Quando nos habilitamos à adoção estamos nos disponibilizando a acolher uma criança/adolescente que foram privados de seu direito universal de estar numa família que cuide e proteja. O foco precisa estar na necessidade da criança/adolescente. 
As perguntas que devem ser feitas a nós mesmos quando nos abrimos para determinado perfil são:
Terei/teremos condições de atender às demandas deste perfil?
Estou/estamos preparado(s) psicologicamente para dar conta dos revezes que podem acontecer?
Sei/sabemos quais são as premissas básicas que devem ancorar o processo educativo da(s) criança(s) ou adolescente(s) nesse perfil? Se trata-se de mais de uma criança, cada uma terá necessidades diferentes que precisarão ser atendidas a contento.
Costumo dizer que nos tornarmos pais significa iniciar uma grande aventura... Não importa se os filhos são naturais ou gerados por outras pessoas. 
Todos os filhos darão muito trabalho independentemente da forma que vêm para nós ou da idade que tiverem ao chegar! Por isso, é preciso ter convicção se realmente desejo/desejamos encarar a maternidade/paternidade com todos os desafios inerentes a este papel. 
Todos os filhos precisam de nosso tempo e dedicação! Será preciso renunciar a algumas coisas para abrir espaço aos filhos que virão. Estou/estamos pronto(s) para isso? 
Quando nos decidimos encarar o caminho da adoção, estamos optando por um projeto diferenciado. Estamos nos disponibilizando a amar uma criança/adolescente gerado(s) por outras pessoas que não conseguiram assumir a sua paternidade. Será preciso renunciar ao nosso projeto original - gerar os próprios filhos - para abrir-nos a este novo caminho. Portanto, vamos começar tudo novamente e de outra forma. Por isso, nada pode acontecer intempestivamente, com pressa, na emoção de um momento.
É preciso aprender e apreender as diferenças do caminho da adoção, que pode ser fantástico, se trilhado com tranquilidade e segurança.
É preciso compreender a imensa responsabilidade que é trazer para a sua vida crianças que já têm registros de desamor e rejeição nas suas histórias.
Tenho visto histórias maravilhosas de superação e êxito com famílias que se constituíram pela adoção de crianças com perfis diferenciados. Entretanto, também tenho acompanhado muitas tragédias com desistências e devoluções quando a adoção é feita sem as devidas reflexões e sem o projeto adotivo estar devidamente amadurecido.
As crianças e adolescentes que nos propomos a adotar não são instrumentos para resolver as nossas questões existenciais. Não são objetos que podem ser descartados ou devolvidos como compras defeituosas. São sujeitos de direitos. Nós somos os adultos da história e cabe a nós nos prepararmos profunda e intensamente para podermos encarar o seu processo educativo com a segurança e tranquilidade necessárias. Pois será a partir de nós que eles se organizarão psicologicamente.
Pais seguros, filhos seguros.
Pais tranquilos, filhos tranquilos.
Pais de verdade, filhos de verdade.
Pais de verdade, filhos de verdade, famílias verdadeiras!



sábado, 19 de agosto de 2017

Madonna 59 anos, 6 filhos

Na imagem, a mamãe Madonna está rodeada pelo clã composto por Rocco, de 17 anos, David Banda, de 11, a primogênita Lourdes Maria, de 20 anos, Mercy James, de 11, e as gêmeas Estere and Stella, de 4 aninhos. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Paternagem exige Atitude Adotiva.


Tatiana A. M. Valério
Professora do IFPE Campus Belo Jardim
Doutoranda em Psicologia Cognitiva – UFPE
Fundadora e Assessora Pedagógica voluntária do GEADIP*



A cultura impõe regras e modelos que acabam moldando comportamentos e papéis sociais. Um desses papéis é o “ser pai”. Um modelo que orienta o exercício da paternidade é o biológico, ou seja, o vínculo estabelecido é o de parentesco genético. Esse modelo vem de uma ideia antiga de patriarcado, em que o homem exercia, na família, autoridade, muitas vezes com violência, sobre as mulheres e crianças. 
Nesse modelo biológico, o homem era o provedor da casa e sua relação com os filhos era marcada pela distância afetiva. Essa herança cultural persiste em muitos lares até os dias de hoje, onde a falta de afeto na relação pai e filho se perpetua.
Os papéis sociais, entretanto, têm se reconfigurado frente às demandas da modernidade e outro modelo cultural, nesse cenário, surge, ganhando força a cada dia. É o modelo social ou cultural de pai. Ele é marcado pela prática do cuidado, do amor, do afeto. Ele extrapola a paternidade – entendida puramente como o vínculo genético – e ganha a dimensão da afetividade, isto é, o papel do cuidado e das trocas afetivas passam a constituir a relação pai e filho ou filha. Assim surge a paternagem, que exige uma atitude adotiva do homem (pai) em relação ao seus filhos e filhas.
No contexto da adoção, a decisão de adotar nem sempre começa pelo homem ou é aceita por ele com tranquilidade – quando falamos de adoção por casais heterossexuais. Isso pode estar ligado, equivocadamente, à questão da virilidade masculina, muito associada à procriação, apenas. Isso é um mito que precisa ser amplamente discutido e superado, uma vez que as qualidades ou virtudes paternas não estão na capacidade do homem em gerar biologicamente crianças, mas tão somente na sua capacidade de adotar seus filhos ou filhas, gerados ou não por ele.
É muito fácil constatar o quão comum é a ideia de que pai é aquele que gera. Bastar vermos as situações onde homens realizam testes de DNA para comprovar um vínculo genético com a criança. O teste acaba por ser um instrumento necessário que obriga o genitor a cumprir seu papel de provedor e de responsabilidade para com o suprimento das necessidades físicas da criança, resultando em uma pensão alimentícia. Mas a necessidade afetiva da criança, que também é uma necessidade básica, jamais será preenchida por quem apenas comprova vínculo genético.
O tornar-se pai é construído na relação, na prática do cuidado, do amor, do afeto. Isso é paternagem, e não paternidade. Vários autores comprovam que tanto o pai quanto a mãe estão aptos a cuidar de uma criança. Exercendo tais tarefas, o homem está verdadeiramente sendo pai. Não é a quantidade de tempo que o homem investe nessa relação paternal que se dará a construção da paternagem. O que importa é a atitude que ele toma quando está junto com o filho ou filha. A ATITUDE precisa ser ADOTIVA. Só adotando a criança que nasce, os genitores tornar-se-ão seus pais. Quando isso não ocorre, pessoas, sabedoras da necessidade da atitude adotiva na construção da paternagem ou maternagem, assumem para si essa tarefa e tornam-se pais ou mães, através da adoção, daquela criança que perdeu ou nunca teve a proteção de seus genitores.


Fonte:
*Grupo de Estudo e Apoio à Adoção do Vale do Ipojuca (GEADIP)
Facebook: @geadipbelojardim




'Professora, você é homem?' A vida de uma mulher trans na sala de aula


'Não abro mão do respeito', diz Alexya - que é professora, mãe e pastora
A turma se cala quando Alexya entra. "Vamos fazendo o roteiro da aula", diz. Só se escuta o barulho de seus saltos no piso de madeira. Ela ajeita o avental bordado e olha séria para o sétimo ano. Apesar da fama de brava, é a preferida de vários alunos. Tem algo de diferente na forma como brinca, conversa, "passa bem o conteúdo", dizem. Tem algo diferente nela mesma: é a única professora transexual que a maioria dos adolescentes já teve.
"Para além de Português, Inglês e como redigir muito bem, estou ensinando o que é diversidade", afirma Alexya Salvador, de 36 anos, que trabalha em um colégio estadual em Mairiporã, na Grande São Paulo.
A transição de Alexander para Alexya aconteceu em 2012, enquanto ela lecionava em outra instituição do Estado. Na época, tirou uma licença de 15 dias para assumir completamente a identidade feminina. Ao voltar, se reapresentou aos estudantes.
Alexander também era professor, mas Alexya tem outras atribuições: é pastora e mãe. Passou a celebrar os cultos da Igreja da Comunidade Metropolitana, comunidade cristã aberta a fiéis LGBT, e adotou Gabriel e Ana Maria, filhos dela com Roberto, seu marido.
Nas duas situações, foi pioneira. Deve tornar-se até o fim do ano a primeira reverenda trans da ICM na América Latina e foi a primeira mulher trans a adotar uma criança no Brasil.
Na escola, sua transformação trouxe a discussão de gênero para a aula. Perguntas sobre o tema começaram a aparecer entre as lições de gramática. Um dia, um dos alunos comentou: "professora, para mim você sempre vai ser um homem". O jovem sentia-se incomodado com a maquiagem e o cabelo liso no corpo forte de mais de 1,80m.
"Vi que ele ficou nervoso, mas respondi: 'fala, vivemos em uma democracia, quero ouvir você'. Não coloco nada goela abaixo. Apenas convido à reflexão. Eu disse: 'se mesmo depois de tudo o que te apresentei, você olhar para mim e ver um homem vestido de mulher, mas respeitar esse homem vestido de mulher, está ótimo. Você é livre para concordar ou não, mas o dever de respeitar, isso não abro mão'."
A professora Alexya SalvadorDireito de imagemISADORA BRANT/BBC BRASIL
Image captionProfessora diz que preconceito não é comum nas crianças - mas sim nos adultos
Para Alexya, falar sobre identidade não serve apenas para tornar os estudantes mais tolerantes. Ela diz que o debate, muitas vezes iniciado pelas turmas, ajuda a formar cidadãos com poder de argumentação, que pensem sobre si próprios e sobre os outros, mesmo que seja para discordar das ideias da professora.
"Deixo que tragam suas realidades... porque as crianças querem ser ouvidas. Muitas delas não têm um pai e uma mãe que sentam para conversar. Percebo que, trabalhando esses mecanismos de construção do gênero, eles pensam para falar e começam a ter vocabulário para se expressar sobre esse e outros assuntos. Como dizer que não se tornam mais donos da sua razão?"
Mesmo com dúvidas e discordâncias, ela diz que as classes lidam bem com sua transexualidade. O preconceito, afirma, não é comum às crianças - o maior problema está nos adultos. No diretor de uma escola anterior que insistia em chamá-la de Alexander. Nos funcionários que olhavam (e olham) torto para suas roupas, nos pais que a acusam de converter seus filhos em gays e lésbicas.
"Ainda sinto que sou muito silenciada. Assim que começou a sair a discussão sobre a cartilha anti-homofobia, a diretora de outro colégio, que era evangélica, disse que eu não poderia mais falar sobre gênero. Respondi: querida, entrei na sala, eu sou o gênero em pessoa. Meu corpo me representa enquanto gênero", diz.
"Como uma mãe pode vir brigar comigo, se eu falei pro filho dela ajudá-la com os afazeres de casa? Falar de gênero não é falar de sexo, é discutir a condição humana."
Alexya Salvador na ICMDireito de imagemISADORA BRANT/BBC BRASIL
Image captionAté fim do ano, Alexya deve tornar-se primeira reverenda trans da ICM (Igreja Cristã Metropolitana) na América Latina

Carinho e confidências

Se colegas e pais tentam calá-la, adolescentes e crianças parecem gostar que ela fale. Na sala visitada pela BBC Brasil, Alexya recebe beijos e abraços. Ao andar entre as mesas, elogia os cachecóis e batons das meninas, enfeitadas para aparecer nas fotos da reportagem. Abre o apostila e lê em voz alta um exercício. Interrompe a leitura de repente: "gente, só tem homens nessas figuras, não tem uma mulher... que coisa chata, né?"
As alunas e alunos contam que a professora pode ser brava quando fazem bagunça, ou muito legal, e aí dançam valsa desviando das carteiras. Para Larissa Oliveira, de 12 anos, muita coisa mudou ali quando Alexya chegou, principalmente as definições do que é tarefa de menino ou de menina.
"Eu, por exemplo, amo jogar bola e os garotos diziam que eu era sapatão. Depois a professora foi explicando as coisas para gente, falou que futebol não é só para homens, que não tem escolha certa para o sexo masculino ou feminino, (vale) o que a pessoa gosta. Ela ensinou bastante sobre preconceito, machismo, essas coisas. É uma pessoa maravilhosa, amo de paixão."
Alexya Salvador na sala de aulaDireito de imagemISADORA BRANT/BBC BRASIL
Image captionAlexya conta ter vivido, quando criança, momentos difíceis na escola
A proximidade com os estudantes fez com que Alexya se tornasse confidente de alguns deles. Sentada na cantina do colégio, ela lembra de um aluno do ensino fundamental que a chamou para contar que era gay e pedir conselhos. A família do menino era muito religiosa e os pais haviam impedido as visitas de um primo que se assumiu pouco antes.
"Quando ele estava chorando, a única coisa que eu podia falar era que ele não era uma aberração, mas um menino lindo, saudável. Não queria dar um conselho para amanhã ele dizer 'Prô, fiz aquilo que você mandou e hoje tô na rua, meu pai me espancou'. Falei que ia caber a ele saber o momento certo. Aconselhei que estudasse muito para um dia ser independente e viver sua vida."
Ao abraçar o garoto, Alexya se viu nele. Ela própria derrubou lágrimas em sua escola, no chão do estacionamento, enquanto apanhava de colegas por ser a "bichinha" da classe. Mais de vinte anos depois, não esquece do que seu professor de Educação Física disse ao ver a cena: "Não quis ser viado? Apanha quieto". Hoje, quando escuta alguém usando apelidos como "viadinho" na sala de aula, faz um escândalo, diz.
Alexya Salvador com família na ICMDireito de imagemISADORA BRANT/BBC BRASIL
Image captionAlexya com os filhos e marido Roberto, com quem está desde 2009

Mãe e pastora

Alexya vê a ideia de que possa moldar a identidade ou a sexualidade do filho dos outros como "falaciosa demais". Mãe de uma menina transexual de 10 anos e de um garoto de 12, ela prega, inclusive como pastora, que cada um traça seu próprio caminho.
Em uma das missas da Igreja da Comunidade Metropolitana, onde seus filhos vão todos os domingos para ouvir os sermões, fala sobre a liberdade do ser. Trans, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e drag queens ocupam as fileiras. Jesus aceitava a todos da forma como eram, diz nas pregações, então não nos cabe julgar. Mas ressalta que a ICM não se resume ao filho de Deus.
"Hoje é conhecida mundialmente como a igreja dos direitos humanos, porque não queremos só ficar falando de Jesus. A gente quer ir para as frentes de batalha, para o Senado, para o Congresso, quer dizer que, se a mulher quiser abortar, o corpo é dela. Não vou legitimar sua vida, você legitima sua história."
A história de Alexya é também a de sua família, símbolo da diversidade que defende. Roberto é gay, Gabriel, hétero, Ana Maria, trans. Quatro pessoas de cantos diferentes que decidiram "cuidar umas das outras", segundo a definição da matriarca. E que se unem em uma coisa só no momento da hóstia quando, crianças no colo dos pais, se abraçam, cabeças encostadas e olhos fechados.
Uma drag queen, de peruca de arco-íris e vestido de tutu rosa, canta um hino e sorri.